Inovação política na periferia 2018-12-07T12:37:33+00:00

Laboratório de Direitos Constitucionais

Os fazedores ensaiam uma sociedade, colocando em prática no mundo as soluções que vão sendo construídas nas relações com seus territórios e seus povos, de modo a atingir e acessar os direitos constitucionais fundamentais.

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I – a soberania;
II – a cidadania;
III – a dignidade da pessoa humana;
IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V – o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

Distantes estrutural e ideologicamente do alcance da maioria das políticas públicas, as periferias encontram fôlego na ação destes agentes que, com suas iniciativas, buscam materializar em práticas culturais e sociais a efetivação de direitos estruturantes.

A partir da proximidade entre o espaço da elaboração e da prática, emergem soluções comprometidas com o dinamismo da realidade periférica, e não com uma interpretação distanciada e estereotipada sobre ela.

Essas práticas partem dos territórios, seus saberes e seus sujeitos, em um movimento constante de criar, testar e validar soluções que podem ser replicadas em toda a cidade. Diferentemente do que se convencionou chamar de trabalho social, o que estes fazedores promovem são pesquisas e experimentações contínuas, incluindo para além da prática, um esforço de pressão política para ampliação daquilo que vai dando certo.

É neste contexto que os fazedores transformam os seus territórios no que chamamos de Laboratórios de Direitos. São chamados assim porque as soluções encontradas não se congelam no tempo e no espaço.

“Essa lógica que a gente começou a viver, no meu ponto de vista, como a organização Oficinas de Imagens, significa que a gente sempre trabalhou com experimentação. Todos os nossos projetos surgiram de processo de experimentação, então aqui é um laboratório de inovação, né, que vocês chamam de Inovação Social.”
Bernardo, Belo Horizonte

Inovação política
na periferia

“Eu conto histórias das quebradas do mundaréu
Lá de onde os ventos encosta o lixo e as pragas bota os ovos.
Falo da gente que sempre pega a pior
Que come da banda podre, que mora na beira do rio
E quase se afoga toda vez que chove
e que só berra da geral sem nunca influir no resultado.
Falo desse gente que transa pelos estreitos escambosos
Esquisitos caminhos do roçado do bom deus.
Falo desse povão que apesar de tudo é generoso, apaixonado
Alegre e esperançoso e crente numa existência melhor na
Paz de oxalá, quem quiser saber meu nome não precisa nem
Pergunta, eu me chamo…”

Cidade com nome de santo / Rodrigo OGI

As periferias são territórios legítimos da cidade

Periferias, favelas, aglomerados, quebradas
margem para quem? à margem do quê?

As representações estigmatizadas reduzem as periferias na narrativa e na estrutura das cidades, deixando para elas o que sobra do entendimento do que é a própria cidade. As periferias, as favelas, os aglomerados e as quebradas vão sendo retratadas na História, a partir de uma lógica sociocêntrica, não como parte do tecido social com identidade própria, mas quase sempre a partir da negação ao que a região central, majoritariamente branca e economicamente privilegiada, considerada o padrão a ser seguido.

“A periferia é política, a periferia é luta, é resistência. É da periferia que está saindo os grandes debates. São pessoas da periferia, são mulheres, são negras e negros. É a minoria em direitos e a maioria populacional.. A política do futuro está na periferia.”
Luiza, Recife

A formulação de políticas públicas distanciada da escuta e da participação na tomada de decisão por quem pertence ao território periférico não atende suas demandas reais, por não levar em consideração suas dinâmicas e características sociais. Essa distorção na compreensão do que são as periferias, a identidade como territórios também legítimos da cidade, implica em dois atrasos: perpetua narrativas e comportamentos que reduzem, inferiorizam e criminalizam seus moradores, em detrimento a um ideal a ser seguido, e potencializa a falta de entendimento do que são as políticas públicas prioritárias e inovadoras para os territórios.

Por outro lado, a segregação entre empobrecidos e ricos na cidade é unilateral. São os cidadãos mais privilegiados que não percorrem a cidade, não conhecem sua extensão, suas margens, seus morros. Cidadãos periféricos trabalham, estudam e percorrem a cidade como um todo, conhecem outras regiões e estão muito mais preparados para processos de intercâmbio e trocas de experiências.

Direitos básicos como acesso à universidade (às educação como um todo), trabalhos não precarizados e saneamento básico são pautas urgentes para todos os brasileiros. Nas periferias, tais acessos são ainda mais escassos e os poucos que os vivenciam, percebem como a concretização desses direitos abre portas para outros direitos e outras garantias.

Formação política a partir das periferias

As articulações políticas foram historicamente costuradas em ambientes institucionais que se faziam presentes nos territórios como organizadores e mediadores dos sujeitos políticos periféricos, de suas necessidades e interesses diversos, algumas vezes contraditórios ou conflitantes entre si. Estes espaços de formação política nos anos 80 foram essencialmente as igrejas, as agremiações das escolas, os sindicatos e as formações de base partidárias. A partir dos anos 90, as organizações sociais não governamentais, as ONGs, protagonizaram os ambientes de formação política.

“Eu sou cria de projeto social. Aqui no morro tem ali na esquina, um projeto que é cristão, protestante. Antes eles eram bem mais social do que religioso. Hoje em dia, está bem chato essa questão das religiões e tal. Mas lá eu tive a oportunidade de ter contato com marcenaria, teatro, inglês, violão, natação, tênis, dança, cultura, esporte e educação. Mesmo com esse cunho religioso. Isso que me deu essa formação.”
Kadu, Belo Horizonte

Nos últimos 15 anos, as periferias também foram se modificando social, cultural e economicamente. Outros arranjos na disputa e na incidência política na vida das cidades promoveram a formação política através de coletivos autônomos de cultura, ativistas e políticas públicas de acesso à universidade. Esses espaços modificaram socialmente não apenas aos sujeitos participantes, mas também impulsionaram transformações nas suas famílias e nos seus bairros, criando outras possibilidades de ser e ocupar espaços na sociedade, principalmente pelo acesso ao direito à educação.

A dinâmica social dos territórios de onde brotam esses sujeitos periféricos também se modificou. Essas mudanças aconteceram por meio de uma maior circulação em outros espaços sociais, da ampliação de repertório na conexão com outros grupos no ambiente acadêmico e ativista, e de necessidades que emergiram nas periferias pedindo a invenção de novas estratégias e ferramentas.

A partir das periferias

Identificamos na nossa pesquisa cinco contextos para o despertar e o mobilizar do ser político a partir das periferias. Importante ressaltar o termo a partir das periferias e não da periferia, pois compreendemos que este sujeito, mesmo sendo cria dos territórios, circula, disputa e pauta a vida política das cidades, como um vasto território que compreende diferentes visões, identidades e complexidades.

Periferias para expressar a pluralidade.

“A periferia é periferias, com “S”. Sim, porque a gente começou a pensar, periferias, mas dentro das periferias tem vários bagulhos que, tipo, aqui não é igual a Edu Chaves, que é a outra rua aqui de baixo..”
Jesus, São Paulo

A esse novo sujeito político, adotamos o nome de fazedor, termo encontrado pelos próprios pesquisadores especialistas em territórios periféricos, que conhecem e se reconhecem a partir dessa definição. Assim, como os fazedores, existem os realizadores ou os tecedores – como o Instituto Update denomina – termos sinônimos para definir o mesmo comportamento que reconstrói o tecido social, a partir da emancipação cidadã, coletividade e experimentação de novas práticas políticas. A inovação política é plural e diversa e, por isso, a linguagem também é livre para se redefinir conforme sua referência e contexto.

Não é uma periferia, são todas.

Pluralidade que se tem adotado no discurso dos fazedores tem objetivo político bem definido.

Falar em “periferias” é um esforço para não se afastar de uma identidade coletiva que dá a essas pessoas um lugar e um ponto de vista de luta no mundo, ao mesmo tempo em que aponta e qualifica cada território a partir de suas características. Garantindo a ele, portanto, não apenas o direito à identidade, mas provocando para que o Estado seja aberto para participação, ocupação de espaços de poder e, assim, compreenda as necessidades e demandas específicas na construção das políticas da cidade.

Os bairros como sujeitos

Os fazedores são frutos do seu meio, influenciados por suas dinâmicas sociais e culturais em suas práticas. Esses novos sujeitos políticos compõem e impulsionam também a identidade coletiva dos territórios no imaginário da cidade.

Não raro, ao longo da pesquisa, foi comum as pessoas entrevistadas dizerem seu nome, seguido do bairro onde moravam. Em alguns casos, inclusive, o bairro compõe o nome pelo qual o fazedor é reconhecido na cidade.

“Meu nome social é Cris dos Prazeres.
Morro dos Prazeres é meu lar.”

Cris dos Prazeres, Rio de Janeiro

Dor e o movimento como resposta

A dor é um dos pontos fundantes dos seres políticos periféricos contemporâneos. E ela é revelada em uma série de ações contínuas e embasadas na violência de Estado, no racismo e sexismo estruturais.

O racismo estrutural se transforma em racismo institucional nas forças de segurança do Estado, na falta de moradia digna e saneamento, na falta de acesso à educação e à saúde, entre outros. Ele se dá através das violações de direitos humanos, como o direito à vida e à dignidade e deixa marcas psicológicas e físicas. É a interrupção de uma vidapela negligência de quem deveria salvá-la e não estava lá. A violação da honra de uma pessoa ou de sua coletividade, na história contada para o mundo que criminaliza a vítima e estigmatiza a coletividade periférica. Por causa de uma situação traumática, o sujeito amplia suas relações em busca de conforto ou de construção de estratégias para a não repetição do trauma. A ampliação de redes, repertório e de conexões o impulsiona e o projeta como uma liderança portadora de uma possível solução.

“Depois que ele sofreu esse atentado, que ele viu que não havia outra saída, outra solução, ele mudou de cidade, mudou de estado e mudou de vida. E aí eu consegui perceber. Antes disso, antes de acontecer isso com ele, eu achava que as pessoas não conseguiriam se ressocializar. E vendo o caso do meu irmão, um caso próximo assim, que ele se ressocializou, é outra pessoa, consegue estudar, trabalhar, ter uma vida em sociedade saudável, me emocionou e me fez querer proporcionar isso para outras pessoas. Por isso que tem solução, e que não precisa existir uma tragédia para que as coisas mudem. Eu acho que a educação de base, políticas públicas que assistam os jovens para que eles não fiquem nessa marginalidade, à margem da lei. Acho que isso foi um fator que me fez ser mais engajada nas questões sociais.”
Raquel, Recife

“Eu fui circulando pela cidade, vários subempregos e esse processo veio me mostrando como que o mundo não é um faz de conta e a realidade que eu vivi é bem cruel, principalmente para homens e mulheres negras, e grupos que fogem do padrão, vamos colocar assim, heteronormativo, caucasiano. Quem foge desse padrão não branco e não heteronormativo acaba vivenciando vários gatilhos que impulsionam a luta, ou então a uma acomodação. Eu escolhi lutar e estou aí na luta até hoje.”
Álvaro, Belo Horizonte

“O estupro coletivo de uma jovem, feito por 32 homens, que comoveu acredito que o país inteiro, e aí a gente também se comoveu bastante. E essa comoção fez com que a gente se unisse, só que aí é aquela velha história né, “e aí, vai ficar, a gente vai se comover, a gente vai se revoltar, vai se revoltar e daqui a cinco dias essa revolta acabou né, será que dá pra fazer alguma coisa? Assim, é possível fazer alguma coisa?”
Cíntia, Brasília

Deslocamentos

Os deslocamentos dos fazedores para além dos seus territórios físicos originários ampliam a compreensão das desigualdades. É no ir e vir para outros espaços que eles compreendem como a retirada de direitos se dá, nas periferias, de maneira cumulativa: por não acessar educação, memória e cultura, o sujeito pouco compreende como acessar saúde, economia, bem viver e assim sucessivamente.

“O momento que me despertou foi quando eu tive a oportunidade de trabalhar num lugar classe A. Eu morava em São Gonçalo né, que era uma região periférica do Rio de Janeiro, uma comunidade chamada Menino de Deus e aí eu tive a oportunidade de trabalhar na zona sul do Rio de Janeiro, em Botafogo, e nesse trabalho eu tinha a oportunidade de almoçar. O almoço era por conta da empresa e, como eu achava que todo mundo lá era rico eu imaginei que a comida era espetacular.Quando eu cheguei lá eu vi que a galera tinha uma opção alimentar diferente da minha e que reforçava que aquele alimento era de gente rica e a minha comida era de gente pobre. Nesse momento, eu comecei a entender que eu precisava decodificar essas questões de alimentação para a minha comunidade.”
Hamilton, Recife

Não raro, é neste momento que eles experimentam a solidão da inserção, o qual passam a ter dificuldades de se reconhecer no seu ambiente de origem, mas também não se veem como pertencentes aos novos espaços.

Quando o fazedor acessa outros espaços onde os direitos básicos são garantidos, em deslocamentos, geralmente pelo viés do trabalho ou estudo, o choque de contextos revela dinâmicas sociais diferentes daquelas presentes em seu território. A partir de uma elaboração que mistura estranhamento com a habilidade para a tradução, esse fazedor passa a empreender esforços para que o direito experimentado por ele de maneira prática nos novos ambientes frequentados sejam também assegurados em seus próprios territórios.

Os deslocamentos também são interseccionais e estimulam a empatia, mesmo que entre os fazedores exista diferentes contextos de origem, raça e gênero.

“(…) foi depois de uma passeata que teve do grupo lá de Salvador, “Reaja ou Será Morto”, logo depois que teve aquela chacina absurda no Cabula, que executaram 12 jovens, os policiais depois praticamente não foram a julgamento e foram absolvidos. Eu fui a convite de uma amiga minha chamada Lúcia que é de periferia e tal e disse: ‘vamos, venha ver qual é a realidade de ser preto. Eu falei: bom, eu sou negra, mas sou negra de classe média. Então essa coisa para mim da periferia, da vivência, da violência era uma coisa muito deslocada né, não estava tão próximo de mim.”
Thaisa, Recife

Mentor

Uma professora, um líder religioso progressista ou uma educadora nas aulas de arte e cultura. A figura reconhecida e validada como mentor pode realizar papéis sociais diferentes, mas ele é sempre alguém que, em contato com um sujeito periférico, constrói um ambiente de confiança, de troca de referências, de ampliação do repertório de vida e de visão de mundo. É alguém que alimenta a formação de uma visão crítica e geralmente dá pistas de como os talentos do fazedor podem encontrar caminhos para a transformação da realidade. Provocado e inquieto, o fazedor, seja por orientação do seu mentor ou pela construção de um caminho próprio de pesquisa ou de ação, se coloca em movimento a partir do seu território e para o seu território.

“Eu morei em Salvador por 16, 15, 17 anos. Uma jornalista chamada Márcia Guena, volta do Senegal e começa a fazer lá na quebrada onde eu morava, no bairro do Beiru, um jornal comunitário, e esse jornal comunitário tinha por intuito dialogar a questão do se auto-reconhecer enquanto negro, enquanto negra, a valorização e a estética do corpo preto, porque Salvador é uma cidade com mais de 70% da sua população preta. No sistema político, na mídia, nos grandes cargos das empresas o percentual de pretos assim eram muito poucos, e em Salvador naquela época estava numa moda de tentarem nos embranquecer, assim, de várias formas, no cabelo, na estética, na música. Aí, a Márcia, quando ela volta para Salvador ela percebe isso e volta para o bairro e aí reúne uma galera. Esse processo virou a Associação Comunitária Jornal do Beiru, que a gente ficou aí mais de um ano, eu fiquei mais de um ano, quase dois anos, e esse foi um processo assim, que me fez despertar. Porque eu nunca tinha percebido a ancestralidade, eu nunca tinha percebido muitas questões ancestrais, isso porque minha avó tinha um terreiro de candomblé e, com 10, 11 anos, quando ela morre, minha família deixa isso para trás”
Jesus, São Paulo

ONGs

Um dos mais tradicionais espaços formadores de sujeitos políticos nas periferias, as ONGs, têm presença marcante nos territórios desde os anos 90. Brotaram delas muitas das lideranças que hoje puxam outras formas de organização política e social nas periferias, exemplos dos coletivos e das redes, apresentadas mais à frente nessa pesquisa.

Com uma forte característica socioeducativa, algumas ONGs foram e permanecem sendo o espaço de formulação e prática da cidadania, geralmente em suas primeiras experimentações. São elas que alimentam os moradores e moradoras com informações que os impulsionam em direção aos direitos básicos, além de atuar no apoio e proteção dos territórios. Essas características formam fazedores que pensam a partir da lógica de projetos, com alta capilaridade e profundo conhecimento da dinâmica social dos seus bairros, o que resulta geralmente em iniciativas que dialogam com direitos estruturantes.

“A minha primeira iniciativa no campo da política de formação em movimento social me despertou através do CCJ Recife, quando eu fiz o curso de fotografia, onde a gente trabalhava o sócio-político também entre a ferramenta da comunicação e a educação popular…E daí, eu acho que 2012, 2013, eu fiquei mais forte, assim, dentro da política de juventude. Porque, como a gente trabalhava muito na questão de educação popular, trabalhava muito no direito da cidade e direito à mobilidade urbana, eu fui conhecendo outros setores, outra juventude…Daí eu fui me fortalecendo cada vez mais, conhecendo, tendo vivências, intercâmbios, dialogando com outra linguagem de juventude, não só periféricas…fui despertando, pegando o gosto, mesmo assim, e me tornei o que eu sou hoje uma jovem multiplicadora e ativista.”
Jéssica, Recife

Coletivos e redes

Tendo a horizontalidade como essência, os coletivos e as redes são estruturas formativas mais recentes nos territórios. As pessoas se agrupam em torno de temas de interesse, às vezes de maneira temporária, e passam a investigar, produzir conhecimento ou ação a partir dessa identidade coletiva. Pela sua natureza orgânica, uma mesma pessoa acaba por compor dois ou mais coletivos, a depender do seu campo de interesse e de atuação nos territórios.

Deste espaço emergem fazedores políticos com alto comprometimento, entendimento e identificação com as pautas racial e de gênero, reflexo direto da formação política pluralizada que tem nos moradores e no território a sua essência. São nos coletivos e redes que encontramos, a partir da pesquisa feita, os espaços mais férteis para incidência política direta. São nos coletivos e nas redes, também, que são construídas as novas viabilidades para a política que está emergindo.

“A gente faz parte da Rede de Jornalistas das Periferias. É extremamente importante que nós estejamos em rede, principalmente agora, num momento tão crucial da nossa história, porque nós não temos recursos financeiros, a gente tem o recurso humano, a gente tem a possibilidade de engajar as nossas bases. As nossas bases: família, os meus vizinhos, as pessoas do meu bairro. E eu senti que quando a rede de Jornalistas das Periferias foi criada, deu um up para todos os coletivos que faziam parte da rede. E ainda está em processo de estruturação, de articulação, é muito difícil fazer uma rede, é a coisa mais difícil que existe no mundo.”
Jéssica, São Paulo

“O maior ativo que a gente tem é a nossa rede. Esse é o nosso principal ativo mesmo, a nossa principal ferramenta, a nossa rede, quebrar as barreiras (…) sobre conexão nas pessoas. Olhar no olho, sobre verdade, sobre diferenças, sobre coisas que são difíceis até de falar.”
Márcio, São Paulo

O tempo e as condições deste momento histórico

Três condições edificam as bases para a construção do momento histórico que está redesenhando o papel político destes que chamamos de fazedores periféricos:

Mudanças Comportamentais: Os fazedores estão se conectando com redes de interesse que extrapolam as redes de classe. A natureza dessas novas conexões constrói outros repertórios, aumentando redes de apoio e de ação entre centros e periferias.

Mudanças Tecnológicas: Historicamente, as construções políticas se davam nos encontros presenciais, vide o Movimento Hip Hop na Estação São Bento, em São Paulo. Por conta da tecnologia, a internet em especial, fazedores se organizam de maneira mais rápida, com mais diversidade e em maior número, criando redes de colaboração com grande força de incidência.

“Cada vez a gente está ficando mais tecnológico, a gente não pode fugir disso, eu acho que a gente tem que utilizar, aprender a usar todas essas ferramentas e utilizá-las da melhor forma possível. Criar pontes, nem é ponte mais, é aquele negócio que a gente abre assim e passa, portais, a gente criar portal, hologramas, e conseguir conectar, nos conectar com os nossos. Com os nossos que eu digo é com todas as pessoas que estão dispostas a construir a transformação social.”
Evandro, Belo Horizonte

Intersecção de Pautas: Pautas fundamentais da sociedade, raça e gênero transversalizam o pensamento político do fazedor, sem as quais ela ou ele se negam a avançar politicamente.

“A esquerda não consegue compreender nem se você pegar um machado e rachar a cabeça da galera. É a classe, classe, classe, classe… aí você olha e fala: é sério? Quando senta um jovem negro e um branco na frente de um juiz, ou de uma juíza, , o juiz e a juíza assume que aquela pessoa negra é a pobre, fodida, e com certeza cometeu o crime, e assume que a pessoa branca não, mesmo que os dois sejam da mesma favela. E assim, o racismo é tão bizarro, eu já vi casos assim que tipo, o menino negro era quem era o chefe do corre mesmo, quem fazia o rolê acontecer, e quem ficou no processo como chefe foi o branco, porque afinal de contas desde quando o preto vai dar conta de chefiar alguma coisa?”
Fernanda, Belo Horizonte

“Dá para conciliar os coletivos, não é tudo igual, as formas de fazer são diferentes, muito diferente às vezes, mas em algumas questões, no ponto de combate ao racismo, com uma veia também que tem essa questão do viés cultural, algumas reflexões políticas, conecta e aí dá para fazer junto.”
Evandro, Belo Horizonte

“Agora, é bom pensar também na rede com conexões com outros movimentos, tanto pela cidade quanto numa abrangência maior. Eu acho que é um caminho sem volta essa questão, não é? De se organizar dessa forma?”
Rose, Belo Horizonte

CONHEÇA
AS INICIATIVAS

As periferias são espaços de criação, experimentação e validação de ações para reduzir as desigualdades presentes no dia a dia.

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REFLEXÕES

Se a inovação política passa pela redução das desigualdades para o aprofundamento da democracia, o futuro já está sendo revelado nas periferias.

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